A DINÂMICA EXPLICA A POLÍTICA, MAS NÃO JUSTIFICA TUDO

O cenário político da Bahia vive um momento de redefinição de alinhamentos, situação já aguardada por se tratar de ano eleitoral. Os recentes atritos no PSD, longe de ser uma ruptura declarada entre os senadores Otto Alencar e Angelo Coronel, é visto como um desentendimento profundo sobre as regras do jogo. As análises, todavia, migram do campo pessoal e se debruçam na viabilidade de uma candidatura fora do arco de alianças oficial.

O senador Jaques Wagner, em contato com o Bahia Notícias, apontou como “difícil” a possibilidade do grupo ligado ao governo Jerônimo Rodrigues (PT) aceitar uma candidatura independente de um partido aliado à gestão estadual. A declaração é um sinal claro, quase um prenúncio: as portas para uma candidatura avulsa de Coronel, ainda que com pretensões de se vincular à base governista, parecem não estar abertas.

Não custa resgatar na memória que a ascensão de Coronel é, assim como tantas outras, uma construção coletiva, sendo Otto Alencar o grande mentor. Foi justamente o grupo de Otto, aliado ao PT, que o colocou na presidência da Assembleia Legislativa da Bahia.

Mesmo indicado por Otto para o Senado em 2018, Coronel seguia sem segurança eleitoral. A virada só ocorreu com a intervenção direta de Jaques Wagner, que, com sua própria eleição já garantida, mobilizou a máquina e o capital político em favor de Coronel. Esse apoio decisivo não é esquecido, mas reavaliado levando em consideração os interesses atuais do grupo.

É uma dívida política de três andares.

A mensagem que se desenha é que, em um arco governista coeso, não há espaço para projetos solitários que fragilizem a arquitetura da aliança. Coronel se vê, portanto, em um dilema estratégico: ceder ao jogo coletivo, buscando um espaço negociado dentro da base, ou insistir em um caminho próprio que, no momento, parece conduzir a um isolamento prematuro.

O episódio envolvendo o ex-vice-governador da Bahia, João Leão (PP), que se descolou da base de sustentação e viu seu projeto minguar, tende a repetir não os atores, mas as consequências de se subestimar a força dos laços partidários e a lógica das coalizões.

A política, como lembrava Leonel Brizola, “ama a traição, mas odeia o traidor”.