Análise do cenário regional aponta que o ex-prefeito de Salvador não converteu mandatos em capilaridade política fora da capital
Passados quase quatro anos da derrota de ACM Neto (União Brasil) para Jerônimo Rodrigues (PT) no segundo turno de 2022, a percepção entre analistas e lideranças regionais é de que o ex-prefeito de Salvador não conseguiu construir identidade no interior do estado – e o sul da Bahia emerge como o território mais emblemático dessa fragilidade.
Enquanto Jerônimo segue o mandato com presença marcante nos municípios, acumulando visitas a aproximadamente 400 cidades e transformando a interiorização da gestão em ativo político, ACM Neto manteve uma estratégia concentrada em críticas frontais ao governador, com raros diálogos em torno de propostas concretas. Não existe nenhuma resposta sobre a fila da regulação, a segurança pública ou o modelo de governo para o interior. Há, no entanto, um jingle “lacração” em meio a um deserto de ideias.
O sul da Bahia, que em 2022 deu a ACM Neto vitória em municípios estratégicos, apresenta hoje um quadro um tanto quanto diferente. O cenário é analisado por especialistas como resultado da atuação do governador Jerônimo Rodrigues no território e das articulações de lideranças alinhadas ao PT baiano. Na cidade de Itabuna, por exemplo, a reeleição de Augusto Castro (PSD) em 2024, com 58,95% dos votos válidos, reforçou a base governista na região.

O prefeito, que tem no governador Jerônimo um interlocutor direto, é apontado como peça-chave para reverter o resultado de 2022, quando ACM Neto saiu vitorioso no município. A coligação que elegeu Augusto reuniu PT, PCdoB, PV, PP, Republicanos e outras siglas, consolidando um arco de alianças que isola politicamente o ex-prefeito de Salvador.
A virada de jogo é ainda mais significativa considerando o histórico: em 2022, ACM Neto manteve-se “neutro” em relação à disputa presidencial, sem declarar apoio a Lula ou Bolsonaro, o que lhe garantiu votos em cidades com maior inclinação ao governo petista. Naquele ano, Lula teve quase 70% dos votos, e ACM Neto colheu parte desse eleitorado para sua candidatura ao governo. Para 2026, porém, o ex-prefeito já se posiciona com discurso antilulista – uma aposta arriscada num estado onde o presidente venceu em 415 das 417 cidades.
Em Ilhéus, o prefeito Valderico Júnior (União Brasil), eleito com 43,24% dos votos em 2024, é apontado como o principal aliado de ACM Neto com mandato na região. Todavia, o gestor enfrenta percalços com a Justiça, e o desgaste pode respingar nas urnas. Além disso, Valderico não possui a capilaridade política necessária para reverter o quadro de hegemonia petista em municípios do sul baiano.
A perda de apoios importantes, como o do deputado estadual Fabrício Pancadinha, que migrou para o campo governista, e do prefeito de Buerarema, Gel da Farmácia, que também “flerta” com o governo petista, mostra de certa forma a debilidade da oposição na região. Mesmo com visitas pontuais a Ilhéus para discutir alianças, ACM Neto não recompôs o arco de sustentação que tinha em 2022 .

Do outro lado, Jerônimo Rodrigues dedicou-se a ouvir demandas nos territórios e levá-las para os gabinetes do CAB e de Brasília. E para robustecer o comando estadual, o presidente Lula dobrou a aposta na Bahia, transformando o estado em seu QG eleitoral, com volume de recursos federais superior ao dos governos Lula 1 e 2: implantação da BYD em Camaçari; retomada da indústria naval no Recôncavo; além de investimentos nas áreas da saúde, mobilidade e cultura, através de ações do PAC.
A estratégia de ACM Neto reforça a percepção de “candidatura de gabinete”, sem lastro nas demandas cotidianas dos municípios e mostrando a força do individual à frente da construção coletiva. Não tem digital. Não cria identidade.
Esta análise baseia-se em avaliações do cenário regional, considerando articulações políticas, resultados eleitorais recentes e a percepção de lideranças e especialistas sobre a pré-campanha de 2026 na Bahia.


