Por Ronaldo Abude
CEO da Módulo Rural
Ao longo da minha caminhada como empresário, investi bastante em cursos sobre liderança. Sempre entendi que precisaria de colaboradores capazes de me ajudar a perseguir meus sonhos e alcançar os objetivos que tracei para minhas empresas.
Aprendi conceitos fundamentais: não deveria ser um chefe, mas um líder. Não deveria ter subordinados, mas seguidores. Precisava formar uma equipe com “olho de dono”, composta por pessoas que cuidassem dos meus negócios como se fossem seus.
Parece simples, mas posso garantir que está longe de ser. Construir esse ambiente exige estudo, experimentação, persistência e, acima de tudo, coerência para que princípios e valores sejam vividos diariamente.
Hoje tenho oito unidades de negócios espalhadas por oito regiões diferentes e consigo administrá-las à distância graças a uma equipe que considero motivo de orgulho. Enquanto escrevo este texto, mais de cem pessoas estão dedicando seu talento e seu esforço para transformar meu sonho em realidade e fazer meus negócios prosperarem.
Quando observo as seleções na Copa do Mundo, costumo me colocar no lugar de seus líderes e percebo o quanto esse papel é determinante para transformar um grupo de grandes jogadores em uma equipe verdadeiramente competitiva.
Imagine o desafio de liderar atletas famosos, ricos, bem-sucedidos em seus clubes, muitos deles estrelas mundiais. Alguns vieram da pobreza, tiveram uma infância difícil e pouco acesso à educação, mas alcançaram reconhecimento internacional. Como motivar jogadores assim a honrarem a camisa do seu país? Como convencê-los a colocar em risco carreiras milionárias em uma dividida? Como fazer com que deixem de lado a vaidade individual para compreender que, no futebol, vence quem atua como equipe?
Tudo isso em nome da pátria. Em nome de milhões de compatriotas que depositam neles suas esperanças.
Dentro desse contexto, considero inevitável fazer uma comparação entre argentinos e brasileiros. Talvez esta Copa tenha tornado essa comparação ainda mais evidente.
As duas seleções contam com atletas extremamente talentosos, reconhecidos mundialmente e donos de carreiras brilhantes. A diferença, na minha percepção, pode estar justamente na liderança.
E, quando falo em liderança, não me refiro apenas ao técnico. Em um ambiente movido pelo patriotismo, outras figuras também exercem grande influência sobre os atletas: dirigentes, ex-jogadores, imprensa e até as principais lideranças políticas do país.
Basta lembrar de Maradona. Poucos ídolos foram tão talentosos e, ao mesmo tempo, tão polêmicos. Ao longo da vida, envolveu-se em diversos episódios controversos e nunca deixou de ser tratado por grande parte dos argentinos como o maior símbolo do futebol nacional. Foi amado pela torcida, respeitado pela imprensa esportiva argentina e chegou a comandar a própria seleção.
Hoje vemos Messi, aos 39 anos, sendo tratado por companheiros e comissão técnica com um respeito admirável, como uma liderança natural dentro do grupo.
No Brasil, como foi tratado Neymar pela imprensa e pelos dirigentes? Como
nosso técnico o tratou? O que Neymar ouviu de insultos da imprensa, o que Neymar teve que passar para esperar até o último momento para saber se seria convocado, foi humilhante. O Presidente da República, dias antes da Copa o chamou de jogador Home Office e o fez virar meme por todo país.
Independentemente da opinião que cada um tenha sobre o jogador, vale refletir sobre os efeitos que esse ambiente pode produzir em um atleta chamado a representar seu país.
Como esperar que um grupo desenvolva o mesmo sentimento de pertencimento e entrega quando o ambiente ao seu redor é tão diferente?
Como disse anteriormente, liderar nunca é uma tarefa simples. Liderar grandes estrelas é um desafio ainda maior.
A Argentina manteve o mesmo treinador por oito anos. Sua equipe passou a ser conhecida como “Scaloneta”, em reconhecimento ao trabalho desenvolvido. É um técnico que demonstra emoção, compartilha vitórias e derrotas com seus jogadores e conseguiu construir um grupo disposto a fazer sacrifícios pelo coletivo.
Vemos atletas que deixam o campo completamente exaustos, que disputam cada bola como se fosse a última e que colocam seus próprios interesses em segundo plano para defender a camisa da seleção.
Por isso, acredito que não basta reunir grandes craques. O talento individual é importante, mas dificilmente substitui uma liderança capaz de unir um grupo em torno de um propósito comum.
Toda grande equipe precisa de líderes que inspirem, deem exemplo e façam seus liderados acreditar que vale a pena lutar por algo maior do que eles mesmos.
No futebol, esse propósito é representar um país. E, quando os atletas conseguem sentir que o sonho de milhões de brasileiros também é o sonho deles, cada dividida, cada esforço e cada sacrifício passam a fazer sentido.


