A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF por tentativa de golpe de Estado não apenas enterrou suas ambições, mas também desencadeou um movimento paradoxal na Direita: enquanto líderes gritam por anistia, análises estratégicas sugerem que a manobra pode ser um “tiro no pé” para seus interesses em 2026.
A defesa pública da anistia por figuras como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, parece servir a dois propósitos não declarados: evitar a imagem de abandono a Bolsonaro e mascarar uma jogada para eliminar concorrências internas, sabotando, inclusive, as chances de Tarcísio, único nome com potencial para derrotar Lula.
Valdemar Costa Neto, ao admitir que “houve planejamento de golpe”, inadvertidamente enfraqueceu a própria campanha pela anistia, expondo as fissuras no campo bolsonarista. Até a condenação, aliados pressionavam Tarcísio a concorrer em 2026 com o argumento do “atrásra ou nunca”. Bolsonaro estaria inelegível apenas até 2030, e a janela de oportunidade seria curta.
Agora, com a inelegibilidade estendida até 2034 (ou 2060, dependendo do cumprimento da pena), o governador paulista pode postergar seus planos presidenciais para 2030, focando na reeleição em São Paulo, onde segue favorito.

Porém, a anistia mudaria tudo. Michelle e Eduardo Bolsonaro são os nomes mais citados pela base para suceder o ex-presidente. Uma eventual elegibilidade criaria divisão insustentável na direita brasileira, fragmentando votos e entregando a vitória ao PT. Além disso, a PEC que propõe o fim da reeleição não afetaria Lula em 2026, pois a transição só se completaria em 2034. Isso garante que ele poderá usar a máquina pública em sua campanha, tornando-o “osso duro de roer”, como alertam alguns analistas.
A insistência na anistia, portanto, parece um “fogo de muturo”. Para parte expressiva da direita, a volta da família Bolsonaro ao cenário eleitoral anularia Tarcísio e garantiria a polarização com Lula. Já para o centrão, a anistia é um tema tóxico e é quase certo que a bancada ruralista e evangélica pode hesitar em associar-se a uma causa impopular. O jornal britânico The Economist adverte que Bolsonaro, mesmo na prisão, continuará influente, mas qualquer perdão inconstitucional seria barrado pelo Supremo.
Como bem resumiu um aliado do ex-presidente: “Valdemar deu munição para os governistas”. Quem tentou dar o golpe pode, ironicamente, ter caído nele.

